Montag, 6. Juli 2015

Bonitas



Algumas amigas e eu, temos o hábito de trocar textos e vídeos e de ter intensos debates via inbox no Facebook. Essa é uma das coisas boas dessa rede social. Nós estamos espalhadas pelo mundo, mas é como se estivéssemos na mesma mesa de bar, discutindo, refletindo e aprendendo das experiências uma das outras. Recentemente, minha querida Ângela Machado, me mandou o vídeo de uma propaganda da DOVE que a tinha levado às lágrimas. Minha primeira reação também foi me emocionar. Questões de beleza, autoimagem e autoestima feminina sempre me emocionam. Passada a primeira impressão, no entanto, comecei a sentir que o comercial me despertava uma certa revolta. “Por que meu deus?” pensei. Por que será que um comercial tão lindo, cuja mensagem busca estimular mulheres a refletir sobre suas autoimagens, estimulando-as a acharem-se bonitas, estava me incomodando tanto? Depois de muita reflexão, comecei a entender  por quê.

Na campanha realizada em São Francisco, Xangai, Deli, Londres e São Paulo, dois letreiros montados na entrada de uma loja, colocavam as clientes frente a uma escolha: entrariam pela porta na qual se lia “BONITA” ou “COMUM”? A ideia do comercial era de que a mulheres escolheriam uma porta ou outra de acordo com a imagem que faziam de si mesmas. No mesmo comercial, algumas mulheres explicam porque escolheram passar por onde passaram. Foi ao ouvir essas falas que meu incômodo começou.

Ouvindo aquelas mulheres, me dei conta de que, se seu estivesse em frente àquela loja, com certeza teria escolhido entrar pela porta “BONITA”. Aliás, mentira. Do jeito que sou gaiata, teria feito uma piadinha. “Oxe, cadê a entrada das LINDAS? É por essa porta que quero passar!”. E é verdade, viu? Quando me olho no espelho, me sinto absolutamente feliz com o que vejo. Claro que tenho aqueles dias em que acho que minha barriga tá grande, meu culote, fora de controle, meu cabelo, seco, minha bunda, com celulite demais. Mas, no fundo, no fundo, não mudaria nada em mim. Acho que, como um todo, tô bem na fita e me sinto bonita de verdade. O problema é que nem sempre foi assim.

Até mais ou menos meus 10 anos de idade, eu era extremamente convencida de mim mesma. Vira e mexe, minha mãe me conta umas histórias hilárias. Eu me lembro bem de ser bastante vaidosa, de adorar ficar me olhando no espelho e de, uma vez, minha avó ter me chamado pra trançar meu cabelo, me perguntado que penteado eu queria e de eu ter respondido sinceramente, sem afetação alguma: “Qualquer um. Meu cabelo fica bonito de qualquer jeito.” Fui uma criança diva!

Até que fui crescendo e comecei a perceber que nem todo mundo concordava com a minha opinião sobre mim mesma. Comecei a entender que eram negativos alguns comentários que faziam sobre meu nariz, meu cabelo e meu corpo em desenvolvimento. Comentários esses muitas vezes vindos de gente próxima e até mesmo da própria família. Com 11 anos, já tinha aprendido que meu nariz era esparramado, que meu cabelo era duro e pixaim, que tinha um bundão danado e que minhas pernas eram de gambito. De repente, me olhar no espelho já não era tão divertido assim e eu fugia das fotos como o diabo da cruz.

Lia Capricho e ficava babando as fotos de Ana Paula Arósio, Luana Piovani e tantas outras que passaram por lá. Devorava as sessões de beleza, querendo aprender formas de ser bonita. Mas meninas de cabelo pixaim e nariz esparramado simplesmente não existiam naquela nem em nenhuma outra revista. Fazer o que, né?! Superei. Sempre fui uma boa entendedora e por isso rapidamente compreendi que não era bonita e pronto. Passei a me concentrar em ser outras coisas, como, por exemplo,  reflexiva e questionadora.

Mas o estrago estava feito. Aos meus 20 anos de idade, tenho certeza de que não teria escolhido passar pela entrada das bonitas nem arrastada. A sociedade doente na qual cresci tinha conseguido destruir minha autoestima de uma forma que até hoje tenho aqueles momentos de autocrítica patética diante do espelho. Aí está a essência de minha revolta com o comercial, que apesar de bem intencionado, pisou no meu calo.

Nossa sociedade é superficial, preconceituosa e má e não mede esforços para destroçar a autoestima da gente. Nós chegamos a esse mundo sem achar nada de errado conosco. Algumas de nós chegam a genuinamente se amar, até que começamos a ser ensinadas que somos feias, gordas, pretas, secas, vara-paus, que nossos cabelos são esquisitos, que nossa presença é cômica, que nossa aparência no geral é tão anormal que não é digna de ser fotografada pelas revistas e mostrada nos comerciais. Que para sermos amadas precisamos emagrecer, alisar, pintar e diminuir volume do cabelo, clarear dentes, turbinar os lábios, afinar o nariz, malhar, maquiar, lipoaspirar, colocar silicone, vestir isso, aquilo e aquilo outro pra esconder e disfarçar não sei o que lá...Quem quiser pode completar a lista com os diversos procedimentos aos quais a gente se submete e as diversas concessões que fazemos pra nos sentirmos pertencentes e aceitas. Para nos sentirmos belas.

Aí vem a DOVE com sua campanha e diz “nossa, que triste que essas mulheres não conseguem ver que são bonitas”. Claro que isso me enfurece. É óbvio que nós deveríamos ser as primeiras a nos amar. E muitas vezes, de fato, nos amamos.  Mas faz pouquíssimo tempo que começamos a falar em aceitação, em sermos quem somos e a dar vivas à diversidade. Até então o mais comum tem sido nos coagir a constantemente questionar nosso amor-próprio,  a nos rejeitar, criticar e julgar. Fazemos isso com nós mesmas e uma com as outras.

A pressão é tanta, que escolher se achar bonita chega a ser um ato de resistência política, coisa de feminista militante. O normal é se olhar no espelho e não gostar de alguma coisa. Quantas mulheres vocês conhecem que, ao serem perguntadas “o que você mudaria em sua aparência hoje se pudesse?”, responderiam “Absolutamente nada”? Por isso acho injusto colocar toda a responsabilidade de nossa baixa autoestima em nossas costas, nos forçando a fazer uma escolha que a sociedade já faz por nós o tempo todo. É uma crueldade querer que tenhamos uma autoestima saudável, quando se é um dos responsáveis por estraçalhá-la.

Sim, hoje eu marcharia de cabeça erguida pela porta das bonitas e ficaria feliz se soubesse que minhas amigas não hesitaram em fazer o mesmo. Mas seria muito bom se essa escolha viesse de um sentimento autêntico de assim se sentir e não por saber que, se a gente não se amar nem se achar bonita, quase ninguém mais vai.


 
Este é o vídeo da campanha. Dá um clique aí pra ver do que estou falando.