Sonntag, 22. Mai 2016

Liga / desliga



Imagem: Pixabay

Quem se lembra do finado Orkut? Naquela época era fácil se empolgar com a novidade de poder se conectar com tantas possibilidades. Parece que foi ontem que a gente pôde acompanhar seu surgimento, sua popularização e seu declínio. Mas desde o Orkut, já perdi as contas de quantas novas redes surgiram e se mantêm populares.

Será que é possível ir fazendo uma conta em cada rede social que vai aparecendo, ser ativo em todas elas e mesmo assim continuar trabalhando, estudando e tendo uma vida social não virtual? Eu acho difícil, mas tem gente que tenta e consegue. Será que é possível se manter um ser humano equilibrado no meio de tanta troca de informação? Isso aí já é outra arte.

Uma coisa é inegável: nunca foi tão fácil nos comunicarmos. Temos tantos meios de nos expressar que seria até um desperdício perder essas oportunidades. Hoje em dia, quem quiser ser ouvido pode, e por bilhões de pessoas. E é aí que mora o perigo.

A gente pegou gosto por falar, se expressar e o que é pior, se expor. Nas redes que temos à nossa disposição hoje, percebo que difícil mesmo se tornou ficar calado. As pessoas postam foto do que comem, de quando estão se arrumando pra sair, de quando estão na farra, do momento que chegam em casa. Como se isso tudo já não fosse exposição suficiente, a gente ainda opina. Sobre tudo. O tempo todo. 

Me lembro que antigamente eu ouvia muito aquela máxima que dizia “se você não tem conhecimento suficiente sobre um assunto, melhor calar do que opinar”. Hoje em dia esse tipo de filosofia está super fora de moda. Não importa qual seja o assunto e muito menos a abrangência de nosso conhecimento sobre ele, o que importa é participar das discussões. As consequências disso são quase tantas quanto o número de canais dos quais dispomos pra falar o que pensamos.

Comentar sem parar tudo o que se lê por aí pode ser bom e pode dar errado, muito errado mesmo. O lado bom dos comentaristas incansáveis é que o mundo virtual tem aquela mesma atmosfera de mesa de bar. Você ouve um aqui, ouve outro ali, vai se convencendo de uns pontos de vista, coletando uns dados novos, aprendendo com outras opiniões e vai crescendo, formando sua própria opinião e criando um novo discurso, como quem monta um enorme quebra-cabeças. Outras vezes, rola umas brigas também, mas pra quem sabe refletir, existe sempre algo a se aprender. Mas, para que tudo isso seja realmente bom, a gente precisa criar o gosto por pesquisar, esperar um pouco e pensar criticamente sempre.

Adoro o mundo virtual, mas me agonia muito ver a quantidade de comentários sem fundamento que muita gente posta por aí. Dá pra ver que quase ninguém se preocupa tanto com a veracidade dos fatos, com a relevância das fontes e com os impactos que seus comentários e compartilhamentos poderão ter nas vidas de outros. No imediatismo do mundo virtual não há tempo pra respirar fundo e avaliar a necessidade dos posts antes de clicar o botão de enviar, de curtir e compartilhar. Isso acaba fazendo do ambiente virtual um local angustiante, desagradável, cheio de absurdos e asneiras vomitadas em momentos nos quais seria talvez mais sábio contar até dez ou desligar o computador. Isso pode, além de tudo, ser muito perigoso para nós mesmos e para outros.

Aprendo muito com o mundo virtual, mas confesso que às vezes dá vontade de sair correndo dele por saber que qualquer um pode ser formador de opinião, qualquer um é responsável por fazer qualquer ideia viralizar e que as razões pra isso sejam tão diversas e aleatórias que eu, com a minha cabecinha de outra era, acabo sem conseguir entender.

Participar desse mundo pode ser um imenso causador de ansiedade pra uma pessoa que como eu, tem mania de querer ir a fundo na filosofia das coisas. Quando um assunto novo aparece, a lei das redes sociais dita que a gente comente logo e deixe registrado, quase que imediatamente, o nosso posicionamento. Eu tenho tido cada vez mais dificuldade com essa rapidez toda. Um assunto aparece, eu penso sobre ele, discuto com meus amigos mais próximos e só então tem me dado vontade de escrever. Infelizmente esse processo todo não acompanha o imediatismo das questões virtuais, e isso acabou me empurrando aos poucos para a escolha de ficar mais quieta, só observando e aderindo àquela moda das antigas de ficar na minha e apenas escutar quando não tiver muita certeza. Que coisa mais chata. Será que está na hora de desconectar?

Desconectar completamente, apesar de para mim ser por vezes uma ideia bastante sedutora, na maioria das vezes é um plano bem irrealista pros dias de hoje, além de ser uma atitude muito radical. Seria como aquele ditado do inglês “jogar o bebê fora junto com a água do banho”. Pode-se aprender muito no mundo virtual. Eu adquiri tanto conhecimento através das minhas redes que fico pensando em quanto tempo levaria pra conhecer tanta gente, ler tantos livros, ficar sabendo de tanta coisa que está se passando em tantos lugares diferentes se não fosse nesse mundo paralelo. A internet pode acelerar nosso desenvolvimento pessoal fazendo a gente viver duas ou mais vidas no tempo de uma. É assim que eu me sinto.

Eu não nasci em um mundo digital. Eu era uma adolescente quando surgiram os primeiros PCs, então claro que é natural que eu tenha de aprender a me movimentar nesse mundo. Tenho de constantemente tentar descobrir formas de lidar com as redes sociais, para que seja possível pra mim aproveitar o bom delas, sem enlouquecer com seu lado sombra. A maneira que descobri de lidar com isso foi usar filtros em nível super-turbo-extra-blaster. Isso significa selecionar bem os amigos de Facebook, as pessoas que sigo e para as quais eu abro minhas postagens. Também pensar trilhões de vezes quais páginas que sigo, as histórias que leio e o que dignifico com meus cliques.

Quando a gente começa a entender que nossas curtidas têm significado, peso e importância, a gente passa a desenhar um mundo virtual que está em sintonia com o que acreditamos e com quem somos. Redesenhando nosso mundo virtual, a gente gera mudanças no nosso mundo real, e refletindo mais antes de agir no nosso mundo de faz-de-contas, a gente acaba produzindo redes onde é mais interessante e tranquilo circular e nas quais é possível crescer e aprender. E diga se isso não é maravilhoso?



Obrigada pela revisão, Silvinha:-)