Freitag, 17. Februar 2017

Reaprender a opinar




Para mim, opinar é uma arte. Tem gente que tem um talento especial para isso e tem aqueles que, quando o fazem, o resultado sai meio sem jeito, fica estranho e ninguém leva a sério. Com as redes sociais, nunca ficou tão simples e tentador opinar, e, com isso, talentos se revelam e momentos de vergonha alheia se multiplicam.


Como eu tenho um blog no qual escrevo sobre um monte de coisa aleatória, dá para perceber que eu faço parte do grupo daqueles que têm muitas opiniões e que não se envergonham de dividi-las com os outros, mesmo quando ninguém está perguntando nada. Não acho que isso seja uma coisa necessariamente ruim, mas acredito que, como tudo nesta vida, há certas regras, limites e jeitinhos de se fazer. 


Nas inúmeras vezes em que pensei em terminar meu blog, sempre acabava desistindo ao me lembrar do fato de que isso aqui é um bom espaço para falar sozinha e para, ao mesmo tempo, dividir minhas opiniões com quem quiser saber delas. Encontro aqui um meio-termo saudável entre falar o que eu quiser e ter a cortesia de não ficar incomodando quem não está a fim de ser incomodado com meu blá blá blá. Mas essa é minha fórmula; sei que não serve para todo mundo.


O mundo está cheio de comentarista de absolutamente tudo. Como se não bastasse, até mesmo pessoas que, como eu, tomam o devido cuidado para guardar pelo menos parte de suas opiniões para si, de vez em quando, caem na armadilha de distribuir pareceres não solicitados por aí. O resultado é que o mundo anda cheio de teses, crenças e “eu achos” com os quais, muitas vezes, concordamos e milhões de outros contrários aos nossos, ou vindos de pessoas que não nos despertam interesse. 


Às vezes, as opiniões dos outros nos pegam quando estamos de guarda baixa, sem querer necessariamente saber o que eles pensam, como este texto aqui invadindo a timeline de muitos que só queriam relaxar vendo vídeos de filhotes fazendo coisas engraçadinhas. Não tem muito para onde fugir, a opinião alheia está por toda parte, então, o quanto antes aprendermos a lidar com essa pluralidade de ideias, melhor. Nunca foi tão importante saber como, por que e quando se colocar em discussões, assim como nunca foi tão importante reaprender a ouvir e a tolerar o pensamento dos coleguinhas. 


Sempre fico “de cara” com pessoas que têm uma opinião sobre absolutamente tudo e ainda mais “de cara” com as que acham que precisam falar delas a toda hora sem parar. Acho que, ao mesmo tempo em que tentamos dominar a arte de opinar, temos de reaprender a arte de ouvir, senão estaremos condenados ao isolamento, cada um em sua bolha, gritando coisas sem nexo ao vento e com a crença de estar tendo conversas. Que cena triste.


Ter opiniões é bom, e falar sobe elas é melhor ainda. Acho que conversar, discutir e trocar ideias é uma das habilidades mais bacanas que o ser humano tem. Mas troca de ideias tem de ser isso, né?! Uma troca de ideias. Uma vai e outra vem. Eu escuto a sua atentamente e espero você terminar de falar para dizer o que penso. Da mesma forma, você espera eu terminar de falar, enquanto ouve a minha e só depois, se for necessário, se manifesta. Se não for assim, o que temos são berros desconexos sobre assuntos dos quais pouco ou nada entendemos. 


As redes sociais têm o poder de potencializar esse comportamento estranho. A gente fala demais, sobre tudo e sem pausa. A conclusão é que acabamos falando sozinhos porque nos habituamos a ler somente superficialmente os posicionamentos dos outros enquanto já vamos preparando nossa resposta para enviar antes de terminar de ler a última linha. Nós falamos muito, mas não necessariamente respondemos ou dialogamos com o outro. 


Sei que é muito irônico estar opinando sobre a mania de opinar, mas o que proponho não é pararmos de dizer o que pensamos, e, sim, reaprendermos a arte da comunicação. Reaprender a falar sem ofender, discordar sem desqualificar e ouvir sempre até o fim antes de reagir, além de também avaliar se uma reação é realmente necessária. Se nossa capacidade de ouvir, processar e tentar compreender o outro estivesse andando de mãos dadas com a rapidez com a qual falamos sobre tudo, estaríamos vivendo uma época maravilhosa de diálogos intensos, trocas reais de experiências e de muita empatia mesmo. 


Opine aí! O que é que você acha? Ainda dá tempo de recuperar a capacidade de ouvir? Ainda é possível estabelecer diálogos? Vocês conhecem pessoas das quais discordam, mas cujas opiniões, mesmo assim, respeitam? Ou vamos seguir só falando sozinhos mesmo?


Nina Hatty, mais uma vez obrigada pelo carinho e pela revisão:-).